| 16 de setembro de 2014 |
Encontros
Agrada-me a tela de arte francesa que minha mãe fez para mim. Colocada, estrategicamente, ao lado do meu bar, o quadro retrata uma vila cheia de cafés franceses, com suas delicadas mesas e cadeiras de madeira. Às vezes, sinto-me dentro da paisagem, nela exerço minha fantasia predileta, a de escritor.
Quando me deparo com um espaço parecido, sento-me no lugar mais afastado, cruzo a perna com elegância e, com uma voz pausada, peço um cappuccino. Jogo na mesa um punhado de papéis em branco, canetas e um olhar suspenso e imponente, mirando algum ponto no alto, esnobando promessas de uma escrita bela.
Foi em um desses lugares que percebi a presença de dois senhores conversando. Era um diálogo diferente, refinado, misturava literatura, filosofia e historietas locais, acompanhadas de um raro humor. Um dos senhores caprichava mais na erudição, porém, senti mais simpatia pelo senhor de barba grisalha, seu discurso combinava com seus olhos, havia uma ternura que cativava. Anos após, meu amigo e compadre, Marcos Cesário, apresentou-me este senhor, Helio Freitas.
Ontem, nós três, reencontramo-nos. Em sua casa, Helio Freitas nos serviu mingau de milho, requeijão, cuscuz com ovos, a companhia doce de sua esposa Clélia e muitos risos de seus causos engraçados. Meu compadre e eu, degustamos, com deleite, cada uma de suas “bugigangas poéticas”, suas travessuras subversivas, quando, por exemplo, ficou internado no hospital do Rio de Janeiro, fornecendo, sorrateiramente, cigarro e ilusões para seus colegas internados.
A narrativa que mais me encantou foi quando, ainda internado no hospital, ele inventou o menino Zezinho, mudando sua voz para distrair um colega de quarto, um marinheiro amputado e cego, que, nos poucos dias que lhe sobraram, apenas tinha a lembrança do mar e a esperança das promessas de um menino levado.
Helio Freitas, o “menino do peito cabeludo”, também tem uma voz atraente. Lembro-me bem, quando, certa noite, ele, Clélia e Regina Salgado, cantarolavam, afinados, canções de Dorival Caymmi, anunciando que “é doce morrer no mar” e que “o pescador tem dois amor, em bem na terra, um bem no mar”.
Guardo com zelo um presente que ele me deu, um CD com músicas de Walter Santos. Instiga-me a afinada batida do violão, com simplicidade, harmonia e beleza. O cantor que nascera no “Folga Calango” extrai, sem entonações exageradas, uma melodia sedutora, como na canção da faixa 18 que aprecio muito: “tão docemente assim, que jeito lindo de chegar, o amor se fez em mim e eu nem esperava essa beleza, tão docemente assim, não disse nada e foi ficando em mim...”.
Neste último encontro, concordamos quando Marcos Cesário disse que uma das tarefas do escritor é ser simples sem ser vulgar, pois se alguém não o compreender, o ignorante é quem escreve. Talvez por isso é que me cativa a prosa e os versos de Helio, um ilusionista que “escreve de ouvido”, apostando na cadência de suas memórias de infância, o bucolismo de Santa Tereza, suas angústias com a miséria, caipiradas, cantigas de amor e boemias.
Acredito que trouxe comigo algo mais do que as laranjas-limas do belo pomar de Clélia. Sinto com maior nitidez a presença do senhor de barba grisalha com olhos cheios de ternura. Mesmo em tempos em que esquecemos “de corpo e alma as ilusões do povir”, como diria Gabriel García Márquez, a tinta que borro neste papel, cada vez mais, anda com mais firmeza nas travessias inventadas, com a certeza de que minha silhueta fica mais nítida no café francês ilustrado nesta tela, surgindo como na canção do Walter Santos, “tão docemente assim, que jeito lindo de chegar”.
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