Não sei calcular quantas vezes já fui ao quintal nesta noite escura, mas é quase certo que ela não virá. Queria tanto que esta crônica tivesse o seu brilho, nem que fosse com seus olhos distantes e cheios de melancolia. Armei até uma rede e coloquei uma cantiga de saudade na vitrola, mas perdi minha pescaria na maresia da espera.
Quantos poemas encharcados a moça do céu me instigou, lembro que a última vez que a avistei foi no meu itinerário ao Velho Chico, ela se ergueu tão bela e tão triste, que pude, mesmo por um breve instante, ouvir seu raro sussurro. Quisera eu, como na canção de Raul Seixas, preparar-te uma escada para ir ao céu te buscar.
Quantas vezes já lamentei tua ausência e, no fulgor de teu próprio feitiço, já lancei para o céu, sem muita direção, pedras e palavras sem pudor. Lua bonita, não sabe quantas vezes foi preciso desaguar meu pranto para que esquecesse a dor da navalha na noite solitária, seja quando via teus passos nus subindo nos concretos de Brasília ou quando me pegava de surpresa e cravava teus singelos dedos prateados na tela misteriosa do mar de Itapuã.
Perdoe-me a escrita pesada. É neste vazio que me perco e me preencho, arremessando a flecha da minha poesia; é no desejo cativante de tua nau que faz sentido o uivo desvairado dos quixotescos, mesmo quando não consigo dizer adeus. Palavras certeiras as de Gibran: “vivemos somente para descobrir a beleza. Tudo o mais é uma forma de espera”.
E por falar em Gibran, é uma pena que o Povo de Orfalese não tenha dito: Mestre, fala-nos do encanto do Luar. Eu acho que ele responderia: “Mirais vossas vidas no romper da aurora, mas deveis seguir vossos passos nas brechas do luar que a antecede. Não é em vossas casas o melhor abrigo, nem em vossas igrejas a melhor salvação, tampouco vossas compreensões da Terra o melhor conhecimento; Ides primeiro ao encontro lunar, pois, mesmo que se percam em seus próprios sonhos, sentireis a magia de, finalmente, residir em vós mesmos; Orais no templo da Lua, pois a eternidade é um belo deserto sem fim e vossas almas são sedentas de paixão; Povo de Orfalese, não acreditais nas cegueiras livrescas, mas, sim, na ingenuidade de vossos corações, na beleza que pode renascer a qualquer momento da escuridão, mesmo que nos sirva apenas de açoite para o poema”.
Acredito que exagerei um pouco neste texto, mas quem nunca se ofuscou com a lua, principalmente quando a gente se pega esquecido e subindo, como ela, nos atalhos do céu. Ontem, Joana reclamou do meu descuido com o pedreiro, porque não liguei para o “homem do gesso” e com a minha falta de ânimo com as coisas da casa. Certo dia, disse que eu sempre me encontrava no “mundo da lua”. Engraçado, gostei tanto do que ela disse que nem mais sinto inveja de São Jorge.