terça-feira, 8 de julho de 2014

|Edmar Conceição|

24 de junho de 2014





Recentemente, próximo ao dia dos namorados, a esposa de um amigo fez um refresco de laranja para ambos. Ainda no primeiro gole, o sabor não lhe agradou e largou o copo na mesa. Irritada, sua esposa bebeu o suco com voracidade. Pouco tempo depois, ele se encontrava chorando na frente do hospital, preocupado com sua esposa internada e tentando imaginar por que ela tinha colocado chumbinho no refresco.

Não é incomum episódios como este. Certo dia, folheei alguns processos da Vara Crime na qual trabalho e percebi uma verdadeira mitologia grega. Alguém se joga da ponte, ateia fogo no seu amor, estrangula a mulher e depois se enforca; retalha o rosto da suposta amante ou exibe uma arma de fogo pelas praças públicas, anunciando que vai acabar com o mundo, que existir não faz mais sentido.

A cada novo inquérito que chega insurge um novo pasmo, como se o “mundo estivesse perdido”, como se estivéssemos boiando nas sobras das desilusões. Embora Sartre tenha dito que o inferno são os outros, prefiro defender que o inferno depende dos nossos olhos. Zorba, personagem do escritor Nikos Kazantzakis, assevera que, enquanto Deus se preocupou em fazer os monges, os jejuns, a infusão da camomila e as mulheres feias, a invasão do Diabo trouxe tudo o que há de bom nesse mundo: “as mulheres bonitas, a primavera, o leitão assado, o vinho...”.

Ultimamente o Facebook tem sido uma ladainha de pessimismo e de pequenos infernos. A todo segundo alguém publica que a Copa do Mundo é uma conspiração quase diabólica, o PT é uma legião de capetas corruptos, a programação e a ornamentação do São João da minha cidadela são podres e as mulheres mudaram, estão cada vez mais ardis, munidas até de chumbo.

Acho que damos muita importância às feridas. Talvez seja por que nos acostumamos com o pessimismo, acreditamos demais na catequese, como se estivéssemos sempre na iminência do fogo eterno do inferno, no “ranger de dentes”.

Escrevo esta crônica no alvorecer junino. A alvorada me acordou com seus fogos, berros etílicos e uma fanfarra animada cantando para a “rosa dos ventos” carregar a procissão profana para a magia. Engraçado, a pequena multidão lembrou-me de Dom Quixote, da quimera em tempos difíceis. Não quero uma escrita “resmungona”, que ela seja atenta ao acaso, como a estrela quase matutina que vejo agora, amanhecendo tanta coisa em mim, tanta coisa além desta gritaria, além desta janela.

Tenha o “drink” álcool ou chumbinho, asseguro que é preciso mais do que nunca sonhar. Lembro-me de minha avó paterna, nos seus últimos dias, completamente cega “dos olhos”, mas enxergando bem seus sonhos, confundindo-os com o real. Era bom guiá-la na sua cadeira de rodas pelo quintal de nossa casa, fazendo parte de seu desvario: “Vamos, minha vó, o trem tá chegando, coloca teu chapéu mais charmoso, vamos para Bahia! O quintal está florindo, tou sentindo o aroma do jasmim. A igreja está tão bela, vamos cantar sua musiquinha: dizem que amar é de sorte, sorte é para que tem, eu que não tive sorte, não devo amar a ninguém...”.

Minha vó delirava comigo, preocupava-se com o pó do rosto, e, sorrindo, pedia que eu falasse mais baixo por causa dos vizinhos, sempre dizendo: “Eta, Dimá danado, Meu Deus!”.