Há quase dois anos Normeide vem lutando contra o câncer e todas as vezes que a encontro, ela me recebe com o mesmo sorriso do dia em que nos conhecemos, um sorriso que mais parece um abraço, um abraço cheio de ternura, uma ternura que sabe sorrir...
E foi com esse sorriso que Normeide me contou um pouco sobre a sua estória, uma estória tão singular quanto à enfermidade que ela enfrenta. Em meio a duras batalhas contra um tipo raro de leucemia, Normeide soube que precisaria de um transplante de medula óssea e foi aí que a esperança passou a voar em torno de seus nove irmãos. Mas, não é a gente que comanda o voo de uma esperança, e assim, entre os seus nove irmãos, foi apenas em Carminha, que a esperança escolheu pousar.
Quando Normeide me contou esta parte de sua estória, pedi que me levasse para conhecer Carminha. Dias depois fomos até a casa de sua mãe e enquanto conversávamos na sala, aparece na porta de um dos quartos, uma menina de cabelos lisos e compridos, com um olhar terno e um sorriso meigo. Aproximou-se de mim e perguntou quem eu era e, antes que eu pudesse responder, correu para o quarto e voltou, logo depois, com lápis e papel na mão, para que eu anotasse o número do meu telefone. Assim que eu anotei, ela sorriu, acariciou meus cabelos e foi novamente em direção ao quarto terminar a atividade da escola: preencher com bolinhas de papel o desenho de uma borboleta...
É assim que vejo Carminha, uma menina-mulher com Síndrome de Down, que aos vinte e oito anos, voa leve, como uma borboleta, de uma brincadeira a outra. Mas, nesta estória, Carminha não voa apenas entre brincadeiras e fantasias, suas asas de menina se transformaram na única esperança de Normeide continuar a voar.
Na última vez que nos vimos, faltavam poucos dias para a realização do transplante. Com uma pureza no olhar que nem sei descrever, Carminha me chamou escondida no quarto e me perguntou, com os olhos cheios de lágrimas, se o cabelo dela iria cair igual ao de Normeide, porque ela gostava muito do cabelo e não queria ficar sem ele. Eu disse que não e antes que eu pudesse lhe dar qualquer outra explicação, Carminha saiu de novo voando entre suas brincadeiras...
Quanto à esperança, posso dizer que ela segue fazendo ninho dentro dos olhos de todos aqueles que já foram abraçados pelo sorriso de Normeide e que, assim como eu, torcem diariamente para que ela siga remando a favor de seus sonhos.