27 de maio de 2014
“Escrever prosa é uma arte ingrata”. Verdade, Vinícius de Moraes, hoje mesmo estou naqueles dias em que a “crônica não baixa”. Tirando o cigarro (não fumo), já utilizei quase todos os recursos que você mencionou no seu belo texto O exercício da crônica. Enfim, já levantei várias vezes, lavei as mãos, abri a janela, apelei para o uísque, reli crônicas antigas, folhei o jornal, escutei vinis antigos e até ameacei, seriamente, o meu laptop. E nada.
Já estava inventando uma desculpa pela não entrega da crônica quando recebi, pelo celular, um vídeo postado por Joana. São imagens acompanhadas de uma narrativa poética, alertando que “um dia a maioria de nós irá se separar” e que sentiremos saudades das amizades.
O texto é extenso e creditado, equivocadamente, a Vinícius de Moraes, pois apenas os três últimos versos são do poetinha. O vídeo termina com a perfeita canção de Oswaldo Montenegro, A Lista, e um locutor sugerindo ao ouvinte pegar sua “agendinha, aquela bem antiga”, e separar “o nome de pelo menos dez pessoas” que há muito tempo não tem contato, confessando o quanto elas são importantes.
Não tenho uma “agendinha bem antiga”, mas aceito a provocação. Como acredito que tive vários amigos e que minhas crônicas são lidas, a ausência de uma agenda vale como desculpa para não cometer o pecado da omissão e recorrer ao plural.
Assim, confesso, inicialmente, o quanto são importantes os meus amigos de quintais, das tardes que provávamos tomates verdes com sal e pimenta do reino. Amigos da infância... dedicados ao gude, ao pião, ao esconde-esconde, mocinhos e vilões que podiam ser o que queriam com asas impecáveis de tão infantis.
Ah! Amigos importantes do “Sindicato do Crime”, uma legião de meninos travessos que se juntavam na casa velha para articular picardias como furtar manga verde do vizinho e flagrar as moças descuidadas na hora do banho crepuscular.
Não menos importante os amigos do futebol, quanta paciência com minha falta de habilidade, embora não me faltasse a raça e a grosseria de um zagueiro razoável, resolvendo, mais vezes, no grito do que no pé. Ah, amigos meus, quantas gargalhadas ingratas de quando minha mãe parou o caminhão, repleto de boleiros, para que não faltasse minha maçã verde e o leite matinal.
Confesso, deliberadamente, a importância dos meus amigos das matinês de domingo, quantos conhaques misturados com cerveja para que pudéssemos ter coragem para as investidas amorosas. Quantas vezes voltávamos para casa resmungando a falta de sorte, o descuido das moças bonitas que nos recusavam. Ainda me lembro do brilho perverso daquela lua, clareando o vazio de tantos amores jurados em vão.
Aos meus amigos que se aglomeravam às noites no Jardim do Índio, quantas músicas de protesto, mentiras, piadas, indecências e fuxicos.
E os amigos da faculdade, misturando Marx, cerveja e religião... fazendo de conta que a academia nos pudesse dizer alguma coisa.
Como são importantes os amigos de Brasília, quantas lágrimas derramamos naquela cidade de concreto, umedecendo-a com nossas lembranças exiladas. Também os amigos ensolarados de Salvador... açoitávamos tantas esperanças naquele mar de Piatã.
Aos meus amigos de bar, das madrugadas boêmias em que apertávamos as mãos mais do que o comum, das gargalhadas desmedidas, de cada brinde que disfarçava e esquecia a lucidez do cotidiano.
Por fim, aos meus amigos perdidos na minha memória, escondidos em alguma fotografia, no mistério de alguma promessa de um reencontro que, possivelmente, não mais ocorrerá.
Vinícius de Moraes também disse que “a gente não faz amigos, reconhece-os”. Talvez seja pertinente o alerta que “um dia iremos nos separar”, no entanto, embora em tempos que se busca assunto para uma crônica pelo “whatsapp”, convém acreditar que em algum momento você tem o olhar do outro, mesmo com tanta modernidade distante, mesmo no silêncio solitário de tanta confissão estridente.