29 de abril de 2014
“Dia do poeta: Ser poeta é escrever com sentimento o lado bonito inspirado por Deus no pensamento. É estar conectado com o anjo do amor e da paz, sentindo chegar um gostoso desejo de escrever que nos satisfaz...”
Recebi esta mensagem eletrônica há poucas horas. Obrigado, Naldimar, parceiro de tantos sonhos cênicos, logo abriremos, novamente, as cortinas de quem respira fabricando ilusão. Enquanto isso, lendo tua definição de poeta, preciso lhe dizer que o caminho da minha poesia está com sérios problemas de conexão. Talvez seja coisa de quem escreve no empurrão da insônia.
Verdade, “ser poeta é escrever com sentimento”, apenas com sentimento. Adélia Prado também acha o mesmo: Um trem de ferro é uma coisa mecânica, mas atravessa a noite, a madrugada, o dia, atravessou minha vida, virou só sentimento”.
Sei que teu olhar vislumbra bem a beleza divina, mas tem tanta gente puritana pintando com cores frias esse lado bonito que, sinceramente, entendo o Mário Quintana quando ele diz que é um “herege de todas as religiões”.
E agora, moço, que faço se o caminho dos meus versos tocam nas margens que afundam, se escrevo nas fissuras do devir, onde o sol não consegue me tocar por inteiro, fugindo da luz platônica, desejando somente a projeção das sombras do meu itinerário...
Que posso fazer quando tenho sede de escrever esse mistério desobediente que sopra meus passos, esse trilho sinuoso tão difícil de equilibrar, se encontro-me melhor no vazio da calçada, mesmo entranhando o assobio melancólico que sai de mim, deixando um rastro que é melhor do que eu...
Na minha biblioteca, há uma nítida intriga entre o anjo do amor e o da paz. Quando minha escrita transborda paixão, arranha qualquer sossego, ela sai ardida, mesmo que os olhos permitam uma suave garoa.
Nunca me satisfaço com o que escrevo, as ruínas são o alicerce da minha poesia, o cais de quem quer se perder. Quero a incerteza do caminho, a ventania que saiba assanhar o espírito e incomode a eternidade dos querubins.
Naldimar, perdoe meu lamento descrente e cheio de promessas. Como diz seu poeta predileto, Carlos Drummond de Andrade, “tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo e todo o ser humano é um estranho ímpar”. Vamos continuar caminhando e acreditando que são nas veredas poéticas que as divindades procriam seus encantamentos.
20 de outubro de 2013