terça-feira, 29 de abril de 2014

|Edmar Conceição|






Vinícius de Moraes, já faz tempo que quero dedicar-lhe uma crônica em tua inspiração. Hoje você faria cem anos e, por coincidência, é sábado, o dia da criação que tanto gostava. É preciso mais do que nunca brindar, não se deixando morrer, amando em tempo integral, sentindo a perplexidade da palavra escrita em poesia.  

Preparei o teu famoso “uisquinho”. Deixei, também, minha vitrola cantarolando tuas valsas francesas, teus sambinhas, alertando que a vida é uma grande ilusão e a gente mal nasce e começa a morrer, que depois da chegada vem sempre a partida e não há nada sem separação. Verdade Vininha... sei lá, sei não... só sei que é preciso paixão nesta noite de sábado.

Ganhei um lindo boneco de pano, ilustrando tua imagem, feito pelo sopro talentoso de Irís de Guimarães. Ele me lembra tuas entregas, o quanto são demais os perigos desta vida para quem tem paixão e coitado do homem que cai no canto de Ossanha traidor, coitado do homem que vai atrás de mandinga de amor.

Há tanta coisa bela nas tuas poesias que tenho medo que este texto fique extenso, mas é preciso dizer que devemos pedir perdão a mulher amada por amá-la de repente e que o amor é o carinho, é o espinho que não se vê em cada flor, é a vida quando chega sangrando, aberta em pétalas de amor.

E porque hoje é sábado, quero sentir novamente meus dedos enlaçarem os dedos da névoa, suspensos no espaço, para depois, ficar só como os veleiros nos portos silenciosos. Quero pedir a minha amada que crie esperança nos olhos meus, que a distância não existe e todo grande amor só é bem grande se for triste.

Verdade, poeta, a coisa mais divina que há no mundo é viver cada segundo como nunca mais. Não se deve brincar com a vida, a vida é pra valer e é uma só, pois duas mesmo que é bom, ninguém vai dizer que tem, senão se provar muito bem provado, com certidão passada em cartório do céu e assinado embaixo: Deus. E com firma reconhecida!

E, finalmente, porque hoje é sábado, peço tua bênção, Vinícius de Moraes, já que a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida. A bênção, que eu vou partir, devolvo seus versos, vou ter que dizer adeus. Fazer crônica é como teu samba, não é fazer piada, um bom texto é uma forma de oração. Saravá, Vininha... saravá!


19 de outubro de 2013.