04 de março de 2014
Certa vez li uma crônica onde a escritora tentava, com toda convicção, ridicularizar as mulheres adultas que gostam de ursinhos de pelúcia. Para ela, mulheres que já tinham passado dos trinta anos e ainda gostavam de ursinhos de pelúcia eram mulheres que tinham algum problema de desenvolvimento intelectual. Terminei de ler esta crônica com um certo mal estar; fiquei com raiva daquela mulher que via de forma tão estreita um amor por um bichinho de pelúcia.
Eu sou muito ligado aos bichinhos de pelúcia. Não é brincadeira, sou afetivamente sensível a certos bichinhos de pelúcia e até converso com eles...
Toda mulher que amei eu dei um bichinho de pelúcia já com o nome dele. Sim, porque acho que quando damos o nome a algo ou alguma coisa damos uma certa vida, uma certa identidade, damos alma. Pode até parecer ridículo para quem não me conhece, mas há mulheres que eu amei e que já nem tenho mais nenhuma vontade de encontrá-las de novo, que um dia ou outro fico tentado ligar para qualquer uma delas e perguntar como vai aquele bichinho de pelúcia que eu dei a ela. Nunca liguei para, de repente, não ter que ouvir uma resposta agressiva ou triste como: “Ah, dei há muito tempo. Queimei!”. Que horror! Não gosto nem de pensar, só de pensar tenho vontade de chorar de tristeza, de dor...
Uma amiga muito querida me presenteou há algum tempo com um cachorrinho de pelúcia, seu nome é Alma, uma outra amiga disse que, na verdade, seu nome é “Au-Alma”. Bem, o Alma tem este nome porque tirando os psicopatas e outros tipos estranhos de humanos, o Alma tem a cara da alma de todos nós: cara de cachorrinho abandonado e carente... O alma fica sempre no escritório. Às vezes eu o levo para a cozinha comigo, mas o lugar dele, do Alma, é em cima dos livros que ficam sempre em cima da escrivaninha. O Alma fica aqui me fazendo companhia enquanto eu penso, choro ou escrevo... Eu nunca entro ou saio do meu escritório sem cumprimentar ou me despedir do Alma, nunca. E quando as pessoas que eu gosto entram no meu escritório sempre cumprimentam, botam no colo ou fazem um rápido carinho no Alma.
É isto. Eu só queria confessar que o Alma e quase todos os bichinhos de pelúcia que eu tive o prazer de conhecer e conviver, vivem sempre em algum lugar intocável de minha sensível e perturbada alma.
