Numa dessas tardes, folheando alguns livros antigos, caiu, no meu colo, uma fotografia esquecida. Na verdade, quase todas minhas fotografias são esquecidas, são guardadas sem muito zelo em pastas distantes e avulsas. Mas me contagiou o retrato daquele moço sorridente, ansioso para fazer um embarque de quase vinte anos atrás.
Olhei diversas vezes aquele rapazola andarilho e me esquivei do espelho durante um bom tempo, receava encontrar um olhar sem horizonte e um riso atroz, apequenado. Mal findava aquela tarde e senti, pela primeira vez, o risco de minha juventude se desbotar como um pôr do sol melancólico, desses que fazem nossa alma garoar e se recolher. Lembrei-me da voz rouca de Álvaro Perez: “Tempo me deixa em paz”.
Com a penumbra cada vez mais se aproximando, fui para o quintal, talvez tentando esconder do próprio desalento. Foi inútil, meu antigo tablado não tinha mais o frescor do bugarim, nem a tangerineira que me servia, o sabor e a sombra daquele meu pequeno reinado. Éramos, naquele momento, apenas um vão cimentado que, inevitavelmente, se escurecia.
Todavia, quando avistei a muda de sapoti que Álvaro Perez deu para meu filho, em nosso último encontro, provocou-me a lembrança de um “poeminha” de Vinícius de Moraes que aprecio muito: “Parece mentira de tão esquisito: mas sobre o papel, o feio mosquito, fez sombra de lira!”. Rompeu-me um alumbramento, vi o menino Biro saindo do casulo, atiçando suas borboletas cênicas, poeticamente coloridas, acreditando na possibilidade do acriançamento.
Engraçado... neste mesmo quintal, Álvaro Perez e eu, prometemo-nos um belo brinde quando o pé de sapoti crescesse e ofertasse seus primeiros sabores. No início, Biro recuou e, fazendo cálculos, achou que fosse uma empreitada arriscada. Contudo, tranquilizei-o, celebraríamos nem que fosse noutras dimensões, noutros encantamentos. Jamais esquecerei sua gargalhada boêmia, quando ele disse que, neste dia, beberia vodka com gelo. Viva a deixa de Gabriel García Márquez: “a idade não é a que a gente tem, mas a que a gente sente”.
Como diria o poeta (Manoel de Barros) que Biro e eu gostamos: “do lugar onde estou já fui embora” e o “escurecer faz ascender os vaga-lumes”. Naquela noite, já estrelada, percebi que o devir era melhor que a nostalgia e deixei aquele moço bonito, da foto, entrar no seu ônibus e viajar em paz. Entrei no meu quarto, ri da limitação acostumada do espelho e rabisquei uma bela prece ao menino Biro.