andava genoveva jardinando em esplendoroso silêncio quando o carteiro chegou com uma grande encomenda e genoveva de encantada o jardim abandonou para o recato do amplo salão de estar o pesado embrulho desbravar
e desbravou folhas e folhas de papel que envolviam caixas dentro de outras caixas sem que o segredo interior se desvendasse e eram já tantos os pequenos embrulhos e as vermelhas fitinhas desatadas que genoveva de exaustão periclitou
apareceu-lhe então uma fada muito jovem muito bela e muito bela e muito boa que lhe disse assim só o amor é que te permitirá conhecer o segredo dessa encomenda e genoveva brilhou de entusiasmo debruçada sobre o telefone chamou
roberto seu bem-amado apareceu de veloz montada e beijou a caixa como se de cerejas os lábios da sua amada fosse e logo o último embrulhinho se transformou num precioso cheque de milhões
casaram-se e felizes viveram durante algumas semanas
de casino em casino de bólide em bólide a felicidade murchou com o dinheiro e Genoveva voltou só ao recatado silêncio do jardim e de novo lhe apareceu o carteiro mas desta vez com um postal da fada boa que dizia minha querida Genoveva eu e o teu ex-marido casámos-nos e viveremos felizes até acabar a história tua fada madrinha
as lágrimas que daqueles olhos negros então jorraram depressa se congregam em corrosiva irmandade que tudo murcha e enferruja no crepitoso deslizar da desventura sobre os sulcos da permeabilidade da terra recolhida no seu silêncio penitente as primeiras vítimas são as flores abandonadas à dolência líquida de um amor amaldiçoado depois são os pequenos vermes que vencidos pela salinidade daquele pranto demandam em desesperada correria a frescura cicatrizante do pequeno lago do jardim para virem a afogar-se na derradeira transparência da sede ardilosa por fim até uma velha lâmpada há muito esquecida na quietude das enormes raízes de uma tília que se deixam erguer à superfície cansadas da lúgubre solidão do solo a velha lâmpada depressa viu o esplendor da sua tez metálica sucumbir à inclemência daquele choro oxidante
genoveva passeia seu destino inconsolável pelo jardim descobre a velha lâmpada e tocada por uma súbita ternura aperta-a contra o peito enquanto a vai esfregando com uma ponta do vestido humedecida com solarine de repente o sol brilhou mais forte por entre as nuvens as flores recuperam da mortal lividez que as tinha avassalado as aves subiram mais alto e cantaram como nunca se tinha ouvido logo a seguir da derradeira lágrima de genoveva e com um trovão de luz vertiginoso surge o belo corpo de um génio em economia e gestão tofo ele futuro e nobreza todo ele criatividade e confiança todo ele doçura e pele morena
casaram-se e foram felizes e riquíssimos até ao fim da história
o carteiro é que ficou pior que uma barata mas só porque não gosta de finais felizes
deixa-lo
quem seu peito descobre a si mesmo é traidor