sábado, 4 de janeiro de 2014

| José António Franco |





de árvores secas o país do papel prosperava porque eram grandes os homens e maiores as convicções

gargalhadas vegetais entretanto cristalizavam o eco pelas colinas

embora fosse cada vez mais difícil surpreender os habitantes das grandes clareiras nos folguedos tradicionais era possível encontra-los na apaixonada cavaqueira louvando raízes e clamando confiança no futuro

era uma vez o teodoro-concertina e o aldemiro-cepa-torta que estavam à conversa debaixo de uma árvore das patacas a precisar de enxerto e diz o aldemiro olhe vizinho teodoro se o homem afirma isso é porque é verdade e se ele diz que faz eu não duvido porque é como se já estivesse feito e vai o teodoro você é mas é maluco em gajo daqueles que não tem feito outra coisa senão dar-nos cabo das podas e anda sempre a atazanar-nos por causa da medida uniforme das folhas não pode andar lá muito bem do miolo

entretanto gargalhadas vegetais cristalizavam um eco causticante pelas colinas

e vai o aldemiro-concertina eu até acredito que se ele quisesse havia de deixar a nossa floresta que nem um jardim e o teodoro-cepa-torta a atalhar de imediato isso sei eu mas não é coisa que me deixe muito tranquilo porque marado e distraído como ele é ainda nos deixava mas é à mercê das ervas daninhas e das pragas de parasitas que já por aí andam à solta armados em salvadores do que nunca foi deles abaixo a generosidade dos malditos grita o teodoro mas o aldemiro-concertina não gostou nada daquele guincho animalesco e atirou-se a ele de dentuça em riste enquanto o teodoro-cepa-torta tratava de lhe meter as garras na fuça num esgaravatar desembaraçado  de quem não tem medo de andar à noite no escuro

em poucos segundos toda a floresta bem refastelada podia assistir em directo nos canais por cabo da matovisão à refrega dos recentes ex-amigos

as gargalhadas vegetais repetiam-se agora com mais regularidade e o eco abrasava a paz vegetal das cercanias

o hostêncio-rebento-mole que só agora pode aparecer na história porque tinha ido aviar um recado entra na tasca do casimiro-cabo-de-martelo e vai de dar as últimas oh rapaziada foi assinada a proibição de fazer eco e todos emudeceram simultaneamente regressando a casa sequiosos que nem cortiça em colinas de sol ventoso

e eu como tenho de acabar esta história deixo o aldemiro e o teodoro na traulitada que assim se treina a liberdade dos crédulos

a má chaga má erva diz-se lá pela floresta mas eu prefiro dizer que camisa que muito se lava e corpo que muito se atura pouco dura o que não é mais do que a confirmação do tal eco que teima em açular as colinas do país de papel diz ele que Pedro sara sancho adoece


e por aqui me fico