sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

| João Manuel Ribeiro |



Quando me reinventas, clamorosamente


[sei-o] passas por mim em fio de água
cavando sulcos destecendo abismos e pondo sede

és em mim o átrio de mim mesmo lugar feliz
onde me demoro a caldear os olhos com a magia das mãos

moldas-me de brancura e luz cresces-me no sorriso
e desarmas-me da geometria dos gestos desmedidos

sinto-me pouco eu quando me tens
e me reinventas clamorosamente

A travessia do amor


Nos trilhos do amor inconsútil
há um curso que amarra os passos à fundura
dos êxodos internos que atravessamos
fustigados por entregas acidentais
sacudidos e expostos a um mar aberto
sucumbimos à travessia do amor

hoje tão perto de ver esmagadas
todas as intempéries da escravidão
este poema é um grito de libertação


Semente Bravia

Lembra o chão onde cresceu a efémera flor
da paixão respira o perfume da terra
intenso cultivo de soluços e temperanças
entrega os braços à faina dos gestos maduros
põe os pés na aridez do deserto quente
e desamarra os desejos da água e das fontes
morre semente bravia rente ao coração
e renasce na dádiva simples e quotidiana