Quando me reinventas, clamorosamente
[sei-o] passas por mim em
fio de água
cavando sulcos destecendo
abismos e pondo sede
és em mim o átrio de mim
mesmo lugar feliz
onde me demoro a caldear os
olhos com a magia das mãos
moldas-me de brancura e luz
cresces-me no sorriso
e desarmas-me da geometria
dos gestos desmedidos
sinto-me pouco eu quando me
tens
e me reinventas
clamorosamente
A travessia do amor
Nos trilhos do amor
inconsútil
há um curso que amarra os
passos à fundura
dos êxodos internos que
atravessamos
fustigados por entregas
acidentais
sacudidos e expostos a um
mar aberto
sucumbimos à travessia do
amor
hoje tão perto de ver
esmagadas
todas as intempéries da
escravidão
este poema é um grito de
libertação
Semente Bravia
Lembra o chão onde cresceu
a efémera flor
da paixão respira o perfume
da terra
intenso cultivo de soluços
e temperanças
entrega os braços à faina
dos gestos maduros
põe os pés na aridez do
deserto quente
e desamarra os desejos da
água e das fontes
morre semente bravia rente
ao coração
e renasce na dádiva simples
e quotidiana