Acho que eu tinha doze anos. Realmente não sei, apenas tenho a certeza de que já estudava no Cenecista, foi lá onde tudo começou. Foi por causa do tumulto da fila da cantina do colégio que minha mãe teve a péssima ideia de me presentear aquela “pochete” de cor ocre.
Às vezes pergunto-me por que não retruquei, podia ter dito que tomaria mais cuidado na hora da merenda e não perderia mais dinheiro. Poderia também ter explicado a minha principal angústia – naquela época a Xuxa fazia um estrondoso sucesso e, além de sua bota, tinha também uma maldita “pochete” que parecia um pouco com a minha.
Minutos antes de ir ao colégio, ensaiei um contra-argumento: “Mãe, essa coisa de amarrar bolsa na cintura tá parecendo coisa de mulher”. Não deu certo, minha mãe Quezinha foi decisiva, a “pochete” era “unissex” (até hoje tenho trauma dessa palavra), tinha até zíper para moedas e, além de ter sido dispendiosa, tinha comprado em Salvador.
Como diria Nelson Rodrigues: “Batata!”, fiquei conhecido naquele ano como o dono da “pochete da Xuxa”. Para satisfazer o investimento materno, consegui, com muito custo, pendurar a “pochete” por três semanas. Pelo menos serviu para economizar alguns trocados, pois não tinha coragem de sair da sala de aula nem para ir ao banheiro.
Não sei brigar e “corro léguas” para evitar qualquer atrito, faço o impossível para ser imune a constrangimentos, apanhar deve ser o pior deles. Todavia, eu precisava dar um fim naquela situação, em qualquer lugar onde eu estivesse e, o vilão “Quico” me visse, ele berrava e gargalhava: “Ei, Xuxa, cadê tua pochete?”.
As chacotas duraram quase cinco meses. Era uma manhã de São João e avistei, da janela da minha casa, o inimigo. Estava no Jardim do Índio, comprando fogos de artifício. “É hoje”, gritei convicto! Tinha apenas um problema, o adversário tinha quase o dobro do meu tamanho e, no mínimo, devia ser mais velho uns cinco anos. Mas eu tinha um trunfo e caprichei.
Neste dia, D. Quixote teria inveja de mim. Coloquei a calça azul de lycra da minha fantasia do Super-Homem e pus minha jaqueta “jeans”, cheias de bolsos nas laterais. No bolso esquerdo escondi minha pistola preta de plástico e fiz esforço para colocar um cassetete branco, também de plástico, dentro da calça, pois a mesma já era bem justa. Não esqueci do meu velho sapato “vulcabrás”, dava uma sensação de grandeza nos pés. Por fim, pus o capacete que ganhei de minha mãe quando me fantasiou de guarda rodoviário. Estava, meticulosamente, pronto. Imbatível!
Não posso descrever os espantos ou os risos de quem se encontrava na Praça do Índio, também não sei se tinha muitas testemunhas. Estava focado na luta, na defesa do meu brio. Andava devagar e com os braços e as pernas abertas, quase rastejando, como eu tinha aprendido nos filmes de bang-bang. Ao chegar bem próximo ao meu oponente, levantei o visor do capacete e, quase cantando para não gaguejar, desafiei-o: “Repita agora que eu sou a Xuxa!”.
Não posso descrever muita coisa depois desta parte da minha luta, mas da forma que eu girei e caí na grama do canteiro, presumo que o vilão, “Quico, o grande!”, tenha me dado um tapa. Acho que eu não calculei bem o que eu deveria fazer depois de desafiá-lo. Com o tapa, caiu capacete para um lado, pistola para outro. Alguém se aproveitou do meu momento instável e furtou meu cassetete branco, gostava tanto dele, mas a calça de lycra não conseguiu segurá-lo. Alguém me ajudou a catar o restante dos meus pertences e fui embora sem poder cortar meu choro por causa dos soluços.
Não guardo rancores do meu ex-inimigo, também não achei tão frustrante minha batalha, hoje até me divirto com ela na escrita desta crônica, como diria Cervantes: “as feridas que nas batalhas se recebem antes dão honra do que a tiram”. Na verdade, “meu duelo” cumpriu o seu propósito, depois desse dia, o “Quico” nunca mais me chamou de Xuxa, acho que com receio de minha mãe descobrir sobre o episódio fatídico.
Cumpro, hoje, uma velha promessa que fiz para alguns amigos quando rimos desse “heróico episódio”: dedicar-me uma crônica para narrar essa minha desventura. Porém, tenho a impressão que não mudei muito daquele rapazola errante, acho que sempre me fantasio diante de minhas lutas, acreditando que é possível ser “outros” em dias tão efêmeros como nesta tarde de domingo. Agora mesmo, estou diante do meu computador, cercado de livros e símbolos, achando que a fantasia de escritor me cai bem.